Sonambulismo: mistério na noite

06611131acf1c8000c76d63729f03566_LÉ um paradoxo curioso: o cérebro está ativo o suficiente para a pessoa se levantar e se movimentar. Mas o mesmo cérebro não está ativo o suficiente para a pessoa acordar. Caminha-se… dormindo. O que significa este estado de sonambulismo? O sono é uma função essencial ao nosso bem-estar diário. Não será por acaso que passamos cerca de um terço da nossa vida de olhos fechados, a dormir. É uma necessidade física e psicológica. Durante o sono suspende-se a atividade motora e a atividade sensorial. Numa noite, os músculos recuperam e o próprio cérebro descansa. Mas durante o sono fazemos mais do que simplesmente “desligar”. Filipe Silva, pediatra do desenvolvimento que tem feito trabalho especificamente no sono, explica-nos que “o sono não tem as mesmas características durante toda a noite, existindo várias fases e estádios que alternam entre si”. Em termos simples, existem duas fases principais durante o sono: o sono não-REM e o sono REM (REM significa rapid eye movement, expressão que podemos traduzir por movimento rápido dos olhos). Ora na fase não-REM, que vai de um sono superficial a um sono profundo, é onde habitualmente ocorrem os episódios de sonambulismo; na fase REM, por outro lado, é onde “ocorrem a maior parte dos sonhos e que predomina no último terço da noite”, diz-nos. Filipe Silva explica-nos que “normalmente, durante o sono o sistema muscular é grandemente desativado e os movimentos são reduzidos. Este mecanismo é protetor porque promove o repouso do corpo e protege-nos de acidentes”. O sonambulismo está relacionado precisamente com os mecanismos de regulação do sono e de vigília. “As pessoas não têm consciência e não se recordam de nada mas têm atividade motora complexa”, adianta o especialista. É por isso que por vezes são relatadas as histórias mais mirabolantes. O sonambulismo caracteriza-se -se pela ocorrência de comportamentos automáticos e complexos, que acontecem sem que a pessoa tenha consciência do que está a fazer – tal como normalmente também não terá memória do episódio. A pessoa levanta-se e vagueia sem destino. É capaz transportar objetos de um lugar para outro sem razão aparente. É até possível que decida sair porta fora e se aventure pela rua, sem ter consciência de possíveis perigos. Tal como com os terrores noturnos (leia mais aqui), o sonambulismo pode ser desencadeado por diversos fatores médicos, psíquicos e neurológicos. Nestas podem-se incluir coisas tão distintas como a apneia obstrutiva do sono, os movimentos periódicos dos membros, um consumo excessivo de álcool; pode haver alguma influência genética ou ser desencadeado por privações de sono. No entanto, há um fator mais comum do que todos os anteriormente referidos: a idade. “De uma forma geral, os comportamentos estranhos e indesejáveis durante o sono (chamados parassónias) são mais prevalentes nas crianças e atenuam com a idade”, explica-nos Filipe Silva, que acrescenta que ainda “não sabemos ao certo porque é que isto acontece, mas sabemos que as características do sono se alteram com a idade, acompanhando a maturação do sistema nervoso”. Como “falar” com um sonâmbulo Em termos práticos não existe uma cura para o sonambulismo. Como vimos, na maior parte dos casos o simples crescimento poderá resolver o problema (embora algumas estatísticas não coincidam nos números, a verdade é que se trata de uma parassónia muito mais prevalecente em crianças e adolescentes, do que em adultos). O que nos deixa com outra questão: o que fazer neste entretanto? A verdade é que não há um tratamento concreto para o sonambulismo. O que se faz é identificar o problema, diminuem-se os fatores de risco (por exemplo, regular o sono) e previnem-se os possíveis acidentes durante os episódios de sonambulismo. Comunicar com uma pessoa sonâmbula pode ser um exercício particularmente difícil. É importante relembrar que embora a pessoa tenha os olhos abertos e se encontre de pé, o sonâmbulo não deixa de estar na sua fase de sono, pelo que a perda de discernimento é natural. Por essa mesma razão não é aconselhado acordar-se, de forma abrupta, alguém que esteja sonâmbulo. “O maior perigo do sonambulismo é que a pessoa se magoe ao cair de alturas ou sair para a rua”. Por isso, como nos aconselha o especialista, o ideal será “conduzir o sonâmbulo gentilmente de volta para a sua cama”. E de futuro, estando o problema já identificado, também deverá assegurar-se de portas e janelas estão bem fechadas, para assegurar que o sonâmbulo não se afasta inconscientemente de espaço e ambiente mais seguros. Embora muito raros, existem relatos de episódios mais violentos. Ainda assim, é importante desmistificar o problema. O sonambulismo é uma perturbação do sono relativamente comum, que exigirá atenção, é certo, mas que pode ser contrariada. O especialista alerta que “se for muito frequente ou perturbador, existem medicamentos que podem diminuir a sua ocorrência”. Ainda assim está bem identificado o que se deve evitar: “os horários inconstantes e a privação do sono, que agravam esta e outras parassónias”, como nos Explica Filipe Silva. No fundo, se existir uma boa higiene do sono, com horários regulares e um tempo de sono adequado, será possível contrariar o problema. E ainda que outro episódio de sonambulismo volte a surgir, não se atrapalhe: assegure-se de que a pessoa está segura e volte a encaminhá-la para a cama. É uma questão de repor a normalidade, que a noite é longa e traz consigo um sono reparador. Fonte: Saúde/MSN, 25 de janeiro de 2013  ]]>

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